Dois Filhos de Francisco e Um dos Filhos de Lindu  

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Lindu, pra quem ainda não sabe ou não assistiu ao filme, é a mãe de nosso presidente Luis Inácio Lula da Silva. Franciso, pra quem não sabe ou não assistiu ao filme, é o nome do pai dos cantores Zezé di Camargo e Luciano. As trajetórias de vida da dupla sertaneja e do político parecem, à primeira vista e pelos cartazes das cinebiografias, ter muito em comum. De fato, a "linha" da história é mais ou menos parecida: gente muito pobre que de alguma forma alcança o sucesso.

Se olharmos com um pouco mais de profundidade, inclusive e principalmente comparando os respectivos filmes "Lula - O Filho do Brasil" e "Dois Filhos de Francisco" é possível denotar diferenças muito relevantes. As primeiras trago no título deste breve artigo. No filme sobre a vida e a carreira de Zezé di Camargo e Luciano, a unidade familiar é sustentada pelo pai e os irmãos e a mãe da dupla são meros figurantes (a não ser pelo irmão que fazia a dupla originalmente com Zezé di Camargo). Já no filme sobre a vida de Lula o pai não passa de um personagem secundário que abandona a sua família primeiro por uma outra mulher, depois pela cachaça. Os irmãos de Lula aparecem relativamente mais do que os irmãos da dupla sertaneja e com um pouco mais de importância para o personagem central - fica claro que a vida de Lula muda ao ver seu irmão com sequelas de tortura depois de preso e solto pela polícia durante a ditadura militar. A principal diferença é que a mãe de Lula, dona Lindu, é praticamente outra personagem principal do filme. Lindu, uma mulher, é o Brasil. Muito mais verossímil do que a representação da família em "Dois Filhos de Francisco".

Outro ponto a ser destacado e comparado para entender essas diferenças é o recorte que se dá à vida dos personagens centrais. Em "Dois Filhos de Francisco" a sensação é de final feliz hollywoodiano: os dois ricos, fazendo sucesso e dedicando a música aos pais, velhinhos, no palco de um show lotado de fãs que berram seus nomes histéricas porque os acham gatérrimos. Dá-se a entender que o grande objetivo de vida alcançado (e que você, espectador, deve buscar porque se puxa vida até eles conseguiram, você também consegue) consiste em sucesso, fama, dinheiro, beleza.

Obviamente que a cena de "grande trunfo e realização" em "Lula - O Filho do Brasil" é completamente diferente. A cena, também real e documentada, é o discurso de posse presidencial quando Lula dedicou a conquista política a sua mãe, Lindu (aí está ela novamente). O presidente está no carro ao lado de sua segunda mulher e segundo amor de sua vida (segundo entendemos pelo filme), que participou ativamente dos movimentos do ABC junto ao marido, cercado de apoiadores e militantes de todas as partes do Brasil que o admiram por sua história e por suas ações. Estão lá porque acreditam nele. Gritam seu nome pois é uma vitória de todos. O diploma de presidente é exibido, em comparação ao diploma de ensino técnico do Senai que aparece em uma das mais belas cenas do filme, quando dona Lindu (de novo) assiste à colação de grau do filho em lágrimas. Ao invés de sucesso, fama, dinheiro, beleza, vemos conquista, família, amor.

O filme sobre a vida de Lula não dá a sensação de final feliz ao terminar, mas a sensação de que a história continua. Talvez porque não seja um filme sobre o Lula e muito menos um filme eleitoreiro (discordem se quiser, argumentarei o quanto for necessário para sustentar esta opinião). É um filme, sim, sobre o Brasil. Um Brasil que consegue superar um século de mais de sessenta anos de ditaduras ao eleger um presidente que cavou sua popularidade direto da fonte, por sua luta histórica ao lado dos trabalhadores, pela legitimidade que se confere nessa luta quando o líder sabe muito bem o que a população em massa vive. Um Brasil que é representado não pelo presidente, mas pela mulher que sai de Pernambuco com seus muitos filhos que não se conta no filme, num pau-de-arara, que vê crianças morrendo no caminho, que encara a mulher com quem o marido a traiu, que não atura violência por parte do marido e sai em busca de uma vida melhor e oportunidades para os filhos na metrópole, que recusa-se a dar o filho para adoção, que trabalha, que apóia o filho quando ele perde a mulher, o filho, um de seus dedos da mão. Que fortalece o filho durante toda a sua trajetória de vida.

Por isto "Lula - O Filho do Brasil" não é um filme eleitoreiro. A trajetória de Lula é contada de forma a se perceber de onde veio sua formação política, suas idéias, sua gana de trabalhar para defender os interesses dos trabalhadores. Não há menção ao partido, não há menção às campanhas, exceto por uma frase dizendo que ele foi candidato por três vezes antes de conseguir ser eleito. Assim, sem dizer nomes, datas, partidos, nada. O Lula que se vê ali não é o Lula do comercial do PT em horário nobre, falando ao lado de Dilma Roussef e apresentando-a à população telespectadora. Não é o homem do ano do "Le Monde", do "El País" e de tantos jornais estrangeiros. Não é o presidente de maior popularidade já eleito democraticamente no Brasil.

O Lula do filme é o filho de dona Lindu da Silva, brasileira, pernambucana, viúva, retirante, trabalhadora.

A história de Marjane Satrapi  

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Esta aí em cima, senhoras e senhores, é Marjane Satrapi. Conhece? No Brasil são poucas que a conhecem. Talvez fora também. Ela ganhou projeção com o filme "Persépolis", que foi até indicado ao Oscar de Melhor Animação. Não, ela não é uma atriz famosa de Hollywood que fez a voz de uma personagem. Ela escreveu uma série de livros autobiográficos que depois viraram este belíssimo filme, "Persépolis".

Marjane é iraniana, nasceu numa família aristocrata mas com ideais de esquerda. Com a revolução fundamentalista muitos de sua família foram perseguidos e seu tio querido, executado por ser do partido comunista. Ela então, com 14 anos, foi pra Europa terminar o ensino médio. E aí foi pipocando pra vários lugares porque em nenhum ela se sentia muito em casa. Nem em casa.

Um trecho de entrevista que encontrei no www.universohq.com :
"Ou as pessoas gostam de escrever ou elas gostam de desenhar. A gente gosta das duas coisas. Nós somos os bissexuais da cultura. As pessoas não acham que é um problema se você é um homossexual ou se você é heterossexual, mas se você é bissexual elas têm um problema com você".

Então fica aí a dica, pra quem quiser conhecer a História de Marjane Satrapi:

Persepolis - Completo


Autor: SATRAPI, MARJANE
Tradutor: WERNECK, PAULO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

e o filme, Persépolis também. ;)

Minha História: Mari Moscou  

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Já que eu proponho que outras pessoas o façam, pensei que eu devia também fazer. E vamos lá:

Meu nome completo é gigantesco, então eu passei a abreviar pra Marília Moschkovich que, pelo trabalho de soletrar, virou Mari Moscou. Nasci em 10 de Novembro (não conto o ano; muito fácil pra vocês né?), com sol em escorpião e ascendente em leão. Quando nasci já tinha um irmão mais velho. Esse irmão mordeu meu pé assim que cheguei em casa, tamanha a ciumeira.

Aprendi a ler e escrever bem rápido, porque queria mesmo era ler todos os livros e gibis que tinha em casa e inventar os meus também. [Viva a internet e vivam os blogs!] Sempre gostei muito de música e adoro rock and roll clássico.

Nasci numa família de mulheres. Minha mãe tem quatro irmãs e só dois irmãos. Minhas duas avós eram as matriarcas e os homens sempre acabavam caindo fora uma hora ou outra. Talvez a minha curiosidade e fascínio pelas mulheres venha daí. Não sei. Só acho fantástico como somos fortes, como lutamos, como construimos, quão heroínas somos todos os dias, apesar de muito pouco reconhecimento. E bora brigar pelo reconhecimento, então!

Quando eu tinha 14 anos estava voltando pra casa da escola com minha irmã. Por um desastre do destino ela foi atropelada. [ela é uns 4 anos mais nova] Parei o trânsito e carreguei ela com a ajuda de um senhor que era cardiologista e fazia seu cooper vespertino, até a calçada. Quem dirigia o carro era uma mulher, que logo saiu pra reclamar do retrovisor, enquanto eu - também uma criança - ligava pro resgate e pra minha avó, que morava pertinho. Estava tudo bem, exceto pela perna dela. Entrei com ela e os bombeiros no carro do resgate pra irmos até o HC. Chegando lá, não demorou e minha mãe chegou, ajudada por uma amiga do trabalho. Nessas horas, são sempre as mulheres...

Depois de cirurgias e fisioterapia, minha irmã ficou bem ok e não tem mais problemas na perna. Mas livrar-me da culpa foi bem difícil. Um processo terapêutico longo, que só explodiu quando eu já tinha 20 anos de idade.

Também tive um grande amigo, Julio, que faleceu quando eu tinha 16 anos. Acho que isto pra mim foi um dos fatos que mudou bastante a minha vida. Fazíamos praticamete tudo juntos na escola e, de repente, ele não estava mais lá. Doeu. Pra caralho. E só melhorou a dor quando acabou a escola.

Aí me mudei pra Campinas pra estudar. Fui morar sozinha e aprendi mais um bilhão de coisas - tipo que cuidados ter pra alugar uma casa, como se processa alguém ou as técnicas mais eficientes de carregar compras no ônibus. Fora as coisas de ciências sociais que acabei aprendendo, digamos, por estar na universidade fazendo este curso! :)

Desde sempre trabalhei com terceiro setor, movimentos sociais, gênero e feminismo e com educação. Comecei a dar aula aos 16 pra ganhar uma graninha e não depender de mami e papi pra algumas coisas. Fiz pesquisa em sociologia da educação, em educação e desigualdade. Viajei pra todos os continentes do mundo pelo menos uma vez. Acho que só falta a Oceania na verdade. Mas até que já fui perto, na Coréia do Sul.

Hoje estou de volta em São Paulo, ainda me acostumando em conviver com minha mãe, irmã e meu irmão (o irmão que mordeu meu pé morou por três anos na Rússia, o que às vezes facilitou nosso amor fraterno de florescer) de novo. Tenho um pedaço de papel que diz que estou apta para analisar a sociedade em várias esferas, apesar de ninguém achar que isso me dá uma noção mais complexa dos problemas sociais (mas dá viu? ô se dá). E tenho um outro que diz que posso ensinar isso pra adolescentes do Ensino Médio, mas as escolas preferem continuar pagando os antigos profs de história para fazer o meu trabalho. Então continuo ganhando a vida a dar aulas de inglês. Pelo menos por enquanto e, velho, tenho aprendido demais.

Se não for pra aprender algo, nem vale a pena trabalhar. Este é um dos meus lemas. [que inventei agora, claro]

E continuo correndo pra mudar o mundo. Este blog, assim como outros, são algumas das minhas tentativas individuais. E tem as coletivas também, que dá pra acompanhar melhor seguindo outros blogues meus.

Esta é mais ou menos a minha história, pelo menos até hoje, o dia que criei este blog, "A História das Mulheres". E você? Onde estava antes disso? E pra onde vai agora?

Bibliografia  

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PERROT, Michelle, "Minha História das Mulheres".
2007. Ed. Contexto. São Paulo, SP.

SATRAPI, Marjane, "Persepolis - Completo". Trad. Paulo Werneck. Cia das Letras, São Paulo, SP.

Grafias!  

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Sim, este blog tem Bibliografia. Também tem Filmografia e Disco/Musicografia. Também tem Blogografia. É um festival de grafias, tudo isso pra formar uma referências gigantesca da história das mulheres...

Basta clicar no item desejado na caixinha "Grafias" ali do lado. Buena Surte!